Cansei.

Estou cansada de ser responsável.

Tudo começou muito cedo, o abandono do pai, a “necessidade” de compreender os “adultos”, um novo irmão, um padrasto, passar noites em claro, estudar, ajudar com a casa, pia, chão de terra, encerador, oito pares de sapatos. Ir no mercadinho, comprar pão, leite, fazer café, esquentar marmita, não perder o ônibus das 4h30. Lembrar o que disse sua mãe antes de sair para trabalhar, compras pela metade, recados esquecidos, conflito. Você precisa ajudar mais, ser responsável. Colocar comida no prato, servir no sofá pro irmão, padrasto. O copo sujo que me recuso a lavar porque, sim, é injusto eu fazer tudo enquanto em frente à TV tem duas mãos coçando o saco. Primeiras realizações de que, sim, tem algo errado. Mais conflito. Trabalhar, estudar, falhar, beber demais, casar cedo demais, separar. Perder amizades, fazer novas, retomar antigas. Fazer escolhas. Trabalhar, trabalhar, trabalhar. Trem da linha coral, cinco horas da manhã, cansaço, suor, salto quebrado. Medo de colocar o CEP no currículo, podem não te chamar. Mas branca e bonitinha, sabe escrever e usar o word, de repente, o CEP não importava tanto, só o quanto iam gastar. Passagem custava, pasmem, menos de 2 reais. E já tava caro, antes dava para para pagar com moeda de 1 real e receber troco. Salário: 800 reais. Benefício: trabalhar no centro. Lembrar de não ser arrogante. – “Você é muito pretensiosa”. Calar enquanto os “adultos” falam, no masculino mesmo. Prestar atenção, aprender, não ter ideias, e se as ter, não mudar. “Você é muito volúvel”. Escrever só se for currículo e documentos legais. Atriz, só se for de televisão para ganhar o pão. Ser definida, julgada, ouvir na cara, assim na “lata”, porque aos 18 anos de idade, você já deveria saber o que quer da vida. Aos 25, você ainda não sabe nada. Aos 33 você, sem carreira, marido ou filhos, ainda tem muito que aprender. Melhor voltar? Desistir? Trabalhar, trabalhar, trabalhar. Nunca acaba…

Ainda não acabou…

Sei, preciso dizer que podia ter sido pior, agradecer à mãe (tia, avó, professora, vizinha) por ter feito o melhor possível. Obrigada.

E até nisso, é preciso ser responsável, uma boa menina. Não esquecer ninguém. Não ser ingrata. Reconhecer que teve sorte.

Crescer não é chato, CANSA. E não é por acaso.

E um recado aos meus semelhantes.

Faz dois anos e cinco meses que você não está mais por aqui, apesar do Alzheimer ter nos afastado muito antes da sua morte.

Há dois anos e cinco meses eu não pude me despedir. Estávamos longe demais, isoladas por outra doença, a COVID.

Hoje me esforço para recordar você, celebrar você e lembrar aos outros que, como eu, muitas pessoas no Brasil e no mundo perderam pessoas amadas das quais não puderam dizer um último “eu te amo” ou apenas abraçar em silêncio.

Te escrevo para contar que se estivesse entre nós, estaria cansada, como estamos, como estou. Cansada de ver o desrespeito alheio invadir as casas daqueles que amamos. Cansada de ter sua religião sequestrada por homens vis que nunca deram um pão para os que passam fome, mas que gritam que iremos para o inferno por não darmos o dízimo ou depilarmos as pernas. Meu avô era um desses homens, que pouco poder tinha, mas que o exercia com a mesma violência que hoje gritam os homens de bem pelas ruas e catedrais. Eu gostaria de te pedir desculpas, mesmo não sendo culpada, dizer que entendo agora, mas que na época eu não fazia ideia do tamanho do fardo que carregava. Eu o vi te xingar, gritar injurias, vi você tentando se esquivar, tentando manter a distância entre os corpos, mesmo que sua crença e criação não te dessem o direito de apenas se afastar, para sempre. E ele fez isso com todas nós, mulheres que apenas compartilhávamos o infortúnio de compartilhar a mesma casa com um homem que não nos amava, não de verdade.

Eu queria poder te abraçar e te dizer quão orgulhosa sou de ter tido você como avó, mulher nordestina, que trabalhava dia e noite para que todos tivéssemos uma vida digna, que (concordando ou não) apoiava suas filhas, que tratava quem chegasse a sua porta de maneira igual: com afeto; e ajudava sempre que podia, mesmo que fosse apenas com sua escuta, atenta e sem julgamento. Afinal, quem julga é deus, você diria.

            São esses valores que herdei de você (além da mão boa para um feijão delicioso), e são eles que me guiam até hoje e que me levam a escrever o próximo parágrafo, não à você, mas aos que como eu, se sentem perdidos diante de tanta dor e medo, e para aqueles que, diferente de mim, ainda não se deram conta do perigo que corremos.

            Por motivos óbvios não venho ser porta-voz da minha avó ou de uma geração que não conheci bem. Mas venho falar em nome da minha própria geração, uma geração gerada, nutrida e criada por mãos femininas, por forças que superam a natureza, contra todas as chances, elas saíram de seus lares originários, deixaram suas famílias, seguiram seus maridos ou foram sozinhas mesmo para a grande cidade, São Paulo. Com suas crias debaixo do braço, venderam imãs e pinguins de geladeira, panos de prato, cosméticos e iogurte de porta em porta, para sustentar a família, para garantir a dignidade mínima, o material escolar, a cama quente. Algumas sabiam escrever, como a minha, com sua letra canhestra e erros de ortografia, outras nem isso. Algumas tinham ambições que foram deixadas de lado, muitas queriam apenas que os seus sobrevivessem. Minha avó chegou em Guaianazes quando tudo era mato, ela conhecia cada pedaço daquele lugar, talvez nunca tivesse imaginado que as crianças que viu crescer se tornariam homens cruéis, ou que os netos de suas amigas, escolheriam o preço da gasolina ao invés de vacina. Minha avó nos carregava para cima e para baixo enquanto vendia seus panos de prato para conseguir o dinheiro que faltava para a compra do mês, não porque meu avô não podia, mas porque como “homem de bem e de família” ele direcionava 80% do seu dinheiro para igreja evangélica enquanto suas filhas precisavam de material escolar, roupa e livros. Meu avô queimou livros.

Cresci entre dois mundos cristãos, o da minha avó que era caridoso, gentil, acolhedor; e o do meu avô que era rancoroso, ganancioso e segregador. A escolha de ser bom e justo se faz todos os dias. A de ser cruel e defender a violência, também. Eu escolhi e escolho a minha avó, todos os dias. E se você ainda não escolheu a generosidade hoje, nunca é tarde demais para mudar.

#memorabilia

É sábado e enquanto estendo as roupas limpas no varal, entre uma peça e outra se insinua um poema. Ou algo que eu chamo de poema. Um que fala da raiva, da falta, de um perdão que não se crê possível. Fala também de amor, pelo menos de sua existência, ali, encurralado, sem vazão, prestes a implodir num peito, o meu.

Me pergunto se seria possível abrir mão, do amor ou da raiva, o que fosse mais fácil. Nenhum parece ser.

Nessa disputa entre o desejo de justiça e a necessidade do afeto, quem perde sou sempre eu. Ou você, se assim como eu, perdoar não participa do vocabulário.

Em todo canto tem uma história, ou várias, de pessoas que falharam com você. Num país como o Brasil, não falta abandono, negligência, abuso. Em muitos casos é pura matemática: não se dá aquilo que não se tem. E somos mestres na arte de criar carências.

Mas questiono: quem perdoa minha raiva?

Se quem me feriu caminha incógnito, inimputável e, pior, amado.

Se meus fantasmas inomináveis tornaram-se sombras que caminham comigo, me roubam as delícias, mundanas e sublimes.

Se, exausta, busco apenas afundar esse meu corpo no cobertor pesado que me espera como quem diz: “eu te protejo”.

E nessas águas profundas e quentes me derramo, me demoro. Pois mesmo nos dias mais exuberantes sua mácula está em mim.

——

Quem perdoa minha raiva?

Eu quero ter razão 
Ler nos seus lábios
Pedidos de perdão

Ouvir da sua boca
A canhestra anedota
Que conta

Que assim como eu
Você foi cindida
Pela falta

Que assim como eu
Sente a carência
De tudo que não conheceu

Todavia

Quero ainda o abraço
Que nunca chegou
No momento exato

Agora entre nós
E nosso afeto
Mora o embaraço

#memorabilia

A memória é confiável? Ou ela brinca de trocar datas, lugares, pessoas?

Todas as vezes em que penso no ano de 2001, a primeira imagem que recordo é a de estar sentada em frente a TV da cantina escolar, de mãos dadas com alguém.

Na TV não estavam torres, nem aviões. Ainda viriam a ser protagonistas. O que acompanhávamos atentos eram notícias de uma cidade tomada pela violência nossa de todo dia.

Fevereiro, São Paulo, 2001

Professores amedrontados não apareciam ou dispensavam as classes de crianças assustadas antes que escurecesse.

Pais com estoque de comida, guardavam também os filhos. Outras crianças iam para escola para obter sua única refeição do dia, mas logo voltavam para o abrigo do que se podia chamar casa. Ainda havia aquelas para as quais a escola era o único lugar seguro. Com muro alto e janelas gradeadas, ali talvez nem bandido ou polícia ousasse entrar. Em algumas casas, era diferente.

Nas ruas sentia-se o medo misturar com o cheiro dos pneus queimados, com a visão de prédios carbonizados.

A polícia invadia casas na frenética busca pelos “aliados” do grupo criminoso mais organizado que a cidade gerou, o PCC. Recebiam como trocado, a visita do fogo insone e de pedras rasantes que miravam janelas, portas, cabeças uniformizadas.

Eles estavam em guerra. Nós, apenas ali.

Mas quem fazia a contagem dos corpos? Quem calculava quantas mãos calejadas nunca mais tocariam o ser amado? Ou quantos pares de olhos curiosos não mais veriam a lousa ser preenchida pela mão que segura o giz, trêmula?

#memorabilia

Eu era meio “moleca”, meio “tomboy”, mas em Guaianazes a gente ainda não conhecia a palavra, menos ainda o conceito; então eu era apenas uma menina estranha, que corria de saia e caia de perna aberta, que não gostava de brincar de boneca. Mas ninguém parecia se importar muito, afinal, eu era branca, magra, “educadinha” e gostava de estudar. Em qualquer periferia tudo isso me garantia o status de garota privilegiada.

Eu tinha tudo para dar certo! Exceto um pai, é claro.

Infelizmente, essa é só mais uma história entre muitas. O pai, é uma figura quase mítica para crianças periféricas. O meu pai, era também pai de outros. Alguns ele também abandonou; outros poucos, ele criou. Às vezes me pergunto se tinha algum critério ou era só preguiça, tédio, egoísmo.

Meu pai, que também foi avó do meu primo, era um desses homens “com lábia”, camisa aberta, corrente no peito, clássico bicheiro. Alguns dizem que ele não economizava na generosidade,

uma história famosa é a de que ele teria comprado dez sofás idênticos para entregar na casa de “suas mulheres”.

Sempre que falavam bem dele eu me desconcertava. Pensava “como é possível que um homem tão amoroso seja meu pai e se importe tão pouco comigo a ponto de não lembrar a data do meu aniversário?

funny story:

do mesmo signo que o meu, meu pai fazia aniversário dia 24 de fevereiro, todo ano eu acordava cedo, tomava banho e ligava para ele, do telefone da vizinha, do orelhão ou de casa (depois que passamos a ter um); ele prometia visitar, íamos tomar sorvete, ele traria um presente, eu dizia “não precisa presente, queria te ver”.

Ele nunca veio e a história não é engraçada.

Aos quinze anos entendi o problema: eu não existia de verdade. Eu era apenas uma ponte com o passado, uma lembrança distante de uma história “de amor” que também já não existia.

Que direito eu teria então de bater em sua porta de madrugada depois de um pesadelo? De deixar seus braços me enredarem e me protegerem? Que direito eu tinha de ter medo e desejar que ele me acalmasse? Ou de apenas ouvir sua voz nas manhãs de aniversário? Eu, logo eu, a filha da “outra”, aquela que anos depois ele sequer reconheceria?

Era preciso ser forte, aprender a chorar sozinha. Era preciso não deixar ninguém saber que sofria. Era preciso “ter coragem”.

Infelizmente essa história não é só minha.

#memorabilia #jessycapacheco

Sou filha de um pai ausente, tenho mãe, tenho tia, primo que é sobrinho, este tem uma filha que é minha sobrinha-neta. Sou tia-avó! Tive nove irmãos sabidos, o mais velho é o pai do meu primo, ex-marido da minha tia, irmã da minha mãe. O irmão mais novo, filho de mãe e pai, não cabe nesta história. Dos outros, me faltam notícias.

Uma árvore genealógica composta de galhos que se estendem por lugares esquecidos.

Dos avós, conheci apenas os maternos. No finalzinho da vida, meu avô, que dava sinais de uma lucidez fugidia, contava que sua mãe, a bisa, havia sido “pega no laço” por um estrangeiro com quem teria gerado muitos filhos, dos quais quatorze sobreviveram. Dizia, com tom acre na boca, que era uma mulher brava e não parecia gostar de ninguém, menos ainda dele, que era o mais moço, mais baixo, o que no sol ficava acobreado. 

Minha avó escrevia cartas para a irmã, Rita, a tia-avó cujo contato só existia assim, mediado pelos envelopes que eu levava aos Correios, envelopes com letras tremidas, irregulares, às vezes sujos de alguma gordura de cozinha. Tinha um tio-avô, Antônio, homem alto, de uma brancura doente, trazia dor, medo e espanto a cada visita. A avó nunca contou as histórias de antes e com a idade, veio o Alzheimer, e ela foi para lá, pro antes que eu não conhecia, sem sair do lugar.

Por brincadeira divina ou falta de criatividade, vô e vó nasceram de Joaquins, um Rodrigues, outro Nogueira. As bisas, Rosa e Maria. Maria era de Alencar, e antes de casar, o nome da minha avó se cantava: Antônia Nogueira de Alencar.

Da avó ainda tem o Cantalista, nome que parece ter sumido através do tempo. 

Fiquei Rodrigues da Silva, adicionando o pai Pacheco. Nome de espanhol em Portugal e demoníaco em literatura. 

Essas histórias só chegam até aqui.

Eu sigo, talvez meus pés encontrem um chão.

Ou talvez eu siga suspensa pelos galhos que me dão sustentação.

#memorabilia #jessycapacheco

Na cozinha da minha avó nada se perdia, tudo virava comida, qualquer miúdo, pata, rabo e até as cascas de frutas serviam para sopas, caldos, gelatinas e doces. Lembro do cheiro das cascas de laranja no fogo, misturadas com açúcar. Ferviam por uma eternidade e nunca pareciam mole o suficiente para os dentes de leite naquela boca que ainda não sabia que aquela cor tinha nome.

Meus avós envelheceram rápido demais, antes que eu os pudesse entender, antes que fosse possível compreender os silêncios da casa. 

Minha avó era serena e de olhos gentis. Nunca soube se andava apenas cansada ou profundamente triste, aos cinco anos de idade ainda não se sabe o quão cansado um corpo pode ficar. Ela, que me ensinou o básico da vida, sem formação nem diploma, sem voz; era daquelas que sorriam um sorriso honesto mas comedido, seguido de uma sombra de dor. Parecia que ainda esperava, pela promessa do meu avô de “uma vida melhor” que nunca veio. Talvez o melhor fosse só aquilo mesmo: o que foi possível.

Meu avô era um homem doente que não sabia que adoecia a todos nós, todos os dias. Ressentia sua origem e se agarrava à ilusão de ser igual àqueles que furtaram ao ventre de sua mãe a continuidade de seu povo. Reproduziu até o fim a violência paterna nascida antes dele mesmo. 

Aos cinco anos, no caderno impregnado de cheiros, eu escrevia nome e sobrenome, sem saber que aqueles nomes eram invenções para não morrer.

Em memória de Antonia Nogueira de Alencar e Miguel Rodrigues da Silva.

#memorabilia #jessycapacheco

Quando frequentava a quarta série, uma professora tomou a ousada decisão de levar um grupo de crianças da periferia de Guaianazes para a recém criada “biblioteca” da escola. Era uma sala comum, menor que algumas das outras salas onde se apinhavam quarenta, cinquenta alunos. Era a mesma sala que antes era usada para estocar material, fazer palestras sobre “educação sexual” (obrigatória apenas para as meninas que demonstravam um certo comportamento de risco) e em algumas outras vezes, para ensaios do grupo de teatro, também criado naquele ano, pela mesma professora e do qual eu também participava.

Foi assim que aos dez anos, pela primeira vez na vida, eu tinha diante de mim uma pluralidade de mundos, eu podia escolher qualquer um, podia pegar na mão, examinar as primeiras linhas, levar para casa. E foi o que fiz. Escolhi um livro que narrava a história de uma menina que, entediada por conta de uma queda de energia que tirou sua maior distração, a TV, discava no seu telefone com fio (época em que isso era bastante luxuoso) uma sequência aleatória de números que a “conecta” com outra menina que parecia também não ter muito o que fazer. As duas passam horas falando sobre a vida, o que nessa idade se resume a brincadeiras, “pais” chatos, tédio, etc. Quando finalmente a luz volta, a primeira menina, que já havia e aquecido seu tédio, descobre ao se despedir de sua nova amiga que a menina não poderá assistir TV por ser cega (emoji de cérebro explodindo).

Para grande maioria a moral da história é simples: seja grato pelo o que tem, afinal, tem pessoas que têm menos do que você. Mas ali, aos dez anos de idade, lendo ativamente pela primeira vez, me identifiquei com a carência da menina cega, e também com aquele tipo de serenidade que denuncia uma força inumana. Aos dez anos eu já entendia a sensação da carência, já conhecia o sabor acre de estar no escuro, em um silêncio resignado, à espera. Mas sabia também que era necessário se debater, espernear, arrancar a si mesmo do escuro. Usar o que estiver à disposição, fazer naqueles vinte minutos de biblioteca as escolhas certas, ler em qualquer lugar, ler qualquer coisa que caísse nas mãos. Aos dez anos eu percebia, pela primeira vez, que era ali, naquela sala pequena, mistura de biblioteca com sala de ensaio, naqueles mundos inventados, na arte, que estava a redenção, a minha pelo menos. Eu podia ser outra, eu podia ser várias, forjar minhas narrativas.

Hoje eu faço parte de uma estatística bem diferente daquela que me foi destinada: pela primeira vez na história da USP, 51,7% dos ingressantes cursaram apenas a escola pública. Em 2018, aos 28 anos, com meu nome na quinta lista de chamada do SISU, chorei ao descobrir que minha teimosia havia me garantido o lugar de primeira da família a entrar em uma universidade pública.

Ainda assim estão presentes a insegurança, a dúvida. “Seria eu uma impostora? Eu não deveria estar aqui e todos sabem disso, só eu que não me dei conta ainda?”

Afinal, a única lição que me deram sobre escrever foi: “tem que ter começo, meio e fim”, receita de uma professora que passava as aulas falando dos seus bichos de estimação e não explicando redação.

Mas esta não é uma história sobre mérito, ou sobre superação. É a história das agruras de uma pessoa jovem, periférica, que teve a sorte de encontrar professores que acreditavam na importância das narrativas, na mudança. É a história de alguém que desistiu muitas vezes. E que, aos 32 anos e no sétimo semestre, ainda se pergunta se pode ocupar aquele espaço. Ainda não acredita ser capaz de “dar conta”. Ainda ouve aquela voz no fundo dizendo que se resignar é mais fácil. Ainda bate em portas fechadas. Ainda assiste pela janela, pela fresta. E ainda sonha. 

Mas é, principalmente, a história de alguém que sobreviveu para ver a universidade pública mudar. Uma história que não é só minha. E que com um pouco de sorte e muita teimosia, será de gerações inteiras.