
#memorabilia
É sábado e enquanto estendo as roupas limpas no varal, entre uma peça e outra se insinua um poema. Ou algo que eu chamo de poema. Um que fala da raiva, da falta, de um perdão que não se crê possível. Fala também de amor, pelo menos de sua existência, ali, encurralado, sem vazão, prestes a implodir num peito, o meu.
Me pergunto se seria possível abrir mão, do amor ou da raiva, o que fosse mais fácil. Nenhum parece ser.
Nessa disputa entre o desejo de justiça e a necessidade do afeto, quem perde sou sempre eu. Ou você, se assim como eu, perdoar não participa do vocabulário.
Em todo canto tem uma história, ou várias, de pessoas que falharam com você. Num país como o Brasil, não falta abandono, negligência, abuso. Em muitos casos é pura matemática: não se dá aquilo que não se tem. E somos mestres na arte de criar carências.
Mas questiono: quem perdoa minha raiva?
Se quem me feriu caminha incógnito, inimputável e, pior, amado.
Se meus fantasmas inomináveis tornaram-se sombras que caminham comigo, me roubam as delícias, mundanas e sublimes.
Se, exausta, busco apenas afundar esse meu corpo no cobertor pesado que me espera como quem diz: “eu te protejo”.
E nessas águas profundas e quentes me derramo, me demoro. Pois mesmo nos dias mais exuberantes sua mácula está em mim.
——
Quem perdoa minha raiva?
Eu quero ter razão
Ler nos seus lábios
Pedidos de perdão
Ouvir da sua boca
A canhestra anedota
Que conta
Que assim como eu
Você foi cindida
Pela falta
Que assim como eu
Sente a carência
De tudo que não conheceu
Todavia
Quero ainda o abraço
Que nunca chegou
No momento exato
Agora entre nós
E nosso afeto
Mora o embaraço