#memorabilia

A memória é confiável? Ou ela brinca de trocar datas, lugares, pessoas?

Todas as vezes em que penso no ano de 2001, a primeira imagem que recordo é a de estar sentada em frente a TV da cantina escolar, de mãos dadas com alguém.

Na TV não estavam torres, nem aviões. Ainda viriam a ser protagonistas. O que acompanhávamos atentos eram notícias de uma cidade tomada pela violência nossa de todo dia.

Fevereiro, São Paulo, 2001

Professores amedrontados não apareciam ou dispensavam as classes de crianças assustadas antes que escurecesse.

Pais com estoque de comida, guardavam também os filhos. Outras crianças iam para escola para obter sua única refeição do dia, mas logo voltavam para o abrigo do que se podia chamar casa. Ainda havia aquelas para as quais a escola era o único lugar seguro. Com muro alto e janelas gradeadas, ali talvez nem bandido ou polícia ousasse entrar. Em algumas casas, era diferente.

Nas ruas sentia-se o medo misturar com o cheiro dos pneus queimados, com a visão de prédios carbonizados.

A polícia invadia casas na frenética busca pelos “aliados” do grupo criminoso mais organizado que a cidade gerou, o PCC. Recebiam como trocado, a visita do fogo insone e de pedras rasantes que miravam janelas, portas, cabeças uniformizadas.

Eles estavam em guerra. Nós, apenas ali.

Mas quem fazia a contagem dos corpos? Quem calculava quantas mãos calejadas nunca mais tocariam o ser amado? Ou quantos pares de olhos curiosos não mais veriam a lousa ser preenchida pela mão que segura o giz, trêmula?

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