E um recado aos meus semelhantes.

Faz dois anos e cinco meses que você não está mais por aqui, apesar do Alzheimer ter nos afastado muito antes da sua morte.

Há dois anos e cinco meses eu não pude me despedir. Estávamos longe demais, isoladas por outra doença, a COVID.

Hoje me esforço para recordar você, celebrar você e lembrar aos outros que, como eu, muitas pessoas no Brasil e no mundo perderam pessoas amadas das quais não puderam dizer um último “eu te amo” ou apenas abraçar em silêncio.

Te escrevo para contar que se estivesse entre nós, estaria cansada, como estamos, como estou. Cansada de ver o desrespeito alheio invadir as casas daqueles que amamos. Cansada de ter sua religião sequestrada por homens vis que nunca deram um pão para os que passam fome, mas que gritam que iremos para o inferno por não darmos o dízimo ou depilarmos as pernas. Meu avô era um desses homens, que pouco poder tinha, mas que o exercia com a mesma violência que hoje gritam os homens de bem pelas ruas e catedrais. Eu gostaria de te pedir desculpas, mesmo não sendo culpada, dizer que entendo agora, mas que na época eu não fazia ideia do tamanho do fardo que carregava. Eu o vi te xingar, gritar injurias, vi você tentando se esquivar, tentando manter a distância entre os corpos, mesmo que sua crença e criação não te dessem o direito de apenas se afastar, para sempre. E ele fez isso com todas nós, mulheres que apenas compartilhávamos o infortúnio de compartilhar a mesma casa com um homem que não nos amava, não de verdade.

Eu queria poder te abraçar e te dizer quão orgulhosa sou de ter tido você como avó, mulher nordestina, que trabalhava dia e noite para que todos tivéssemos uma vida digna, que (concordando ou não) apoiava suas filhas, que tratava quem chegasse a sua porta de maneira igual: com afeto; e ajudava sempre que podia, mesmo que fosse apenas com sua escuta, atenta e sem julgamento. Afinal, quem julga é deus, você diria.

            São esses valores que herdei de você (além da mão boa para um feijão delicioso), e são eles que me guiam até hoje e que me levam a escrever o próximo parágrafo, não à você, mas aos que como eu, se sentem perdidos diante de tanta dor e medo, e para aqueles que, diferente de mim, ainda não se deram conta do perigo que corremos.

            Por motivos óbvios não venho ser porta-voz da minha avó ou de uma geração que não conheci bem. Mas venho falar em nome da minha própria geração, uma geração gerada, nutrida e criada por mãos femininas, por forças que superam a natureza, contra todas as chances, elas saíram de seus lares originários, deixaram suas famílias, seguiram seus maridos ou foram sozinhas mesmo para a grande cidade, São Paulo. Com suas crias debaixo do braço, venderam imãs e pinguins de geladeira, panos de prato, cosméticos e iogurte de porta em porta, para sustentar a família, para garantir a dignidade mínima, o material escolar, a cama quente. Algumas sabiam escrever, como a minha, com sua letra canhestra e erros de ortografia, outras nem isso. Algumas tinham ambições que foram deixadas de lado, muitas queriam apenas que os seus sobrevivessem. Minha avó chegou em Guaianazes quando tudo era mato, ela conhecia cada pedaço daquele lugar, talvez nunca tivesse imaginado que as crianças que viu crescer se tornariam homens cruéis, ou que os netos de suas amigas, escolheriam o preço da gasolina ao invés de vacina. Minha avó nos carregava para cima e para baixo enquanto vendia seus panos de prato para conseguir o dinheiro que faltava para a compra do mês, não porque meu avô não podia, mas porque como “homem de bem e de família” ele direcionava 80% do seu dinheiro para igreja evangélica enquanto suas filhas precisavam de material escolar, roupa e livros. Meu avô queimou livros.

Cresci entre dois mundos cristãos, o da minha avó que era caridoso, gentil, acolhedor; e o do meu avô que era rancoroso, ganancioso e segregador. A escolha de ser bom e justo se faz todos os dias. A de ser cruel e defender a violência, também. Eu escolhi e escolho a minha avó, todos os dias. E se você ainda não escolheu a generosidade hoje, nunca é tarde demais para mudar.

Deixe um comentário