
#memorabilia #jessycapacheco
Na cozinha da minha avó nada se perdia, tudo virava comida, qualquer miúdo, pata, rabo e até as cascas de frutas serviam para sopas, caldos, gelatinas e doces. Lembro do cheiro das cascas de laranja no fogo, misturadas com açúcar. Ferviam por uma eternidade e nunca pareciam mole o suficiente para os dentes de leite naquela boca que ainda não sabia que aquela cor tinha nome.
Meus avós envelheceram rápido demais, antes que eu os pudesse entender, antes que fosse possível compreender os silêncios da casa.
Minha avó era serena e de olhos gentis. Nunca soube se andava apenas cansada ou profundamente triste, aos cinco anos de idade ainda não se sabe o quão cansado um corpo pode ficar. Ela, que me ensinou o básico da vida, sem formação nem diploma, sem voz; era daquelas que sorriam um sorriso honesto mas comedido, seguido de uma sombra de dor. Parecia que ainda esperava, pela promessa do meu avô de “uma vida melhor” que nunca veio. Talvez o melhor fosse só aquilo mesmo: o que foi possível.
Meu avô era um homem doente que não sabia que adoecia a todos nós, todos os dias. Ressentia sua origem e se agarrava à ilusão de ser igual àqueles que furtaram ao ventre de sua mãe a continuidade de seu povo. Reproduziu até o fim a violência paterna nascida antes dele mesmo.
Aos cinco anos, no caderno impregnado de cheiros, eu escrevia nome e sobrenome, sem saber que aqueles nomes eram invenções para não morrer.
Em memória de Antonia Nogueira de Alencar e Miguel Rodrigues da Silva.
Pura verdade! Vivi essa experiência.
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Parabéns Jessyca Pacheco, com sábias palavras descreveu uma página da minha biografia.
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