#memorabilia

Eu era meio “moleca”, meio “tomboy”, mas em Guaianazes a gente ainda não conhecia a palavra, menos ainda o conceito; então eu era apenas uma menina estranha, que corria de saia e caia de perna aberta, que não gostava de brincar de boneca. Mas ninguém parecia se importar muito, afinal, eu era branca, magra, “educadinha” e gostava de estudar. Em qualquer periferia tudo isso me garantia o status de garota privilegiada.

Eu tinha tudo para dar certo! Exceto um pai, é claro.

Infelizmente, essa é só mais uma história entre muitas. O pai, é uma figura quase mítica para crianças periféricas. O meu pai, era também pai de outros. Alguns ele também abandonou; outros poucos, ele criou. Às vezes me pergunto se tinha algum critério ou era só preguiça, tédio, egoísmo.

Meu pai, que também foi avó do meu primo, era um desses homens “com lábia”, camisa aberta, corrente no peito, clássico bicheiro. Alguns dizem que ele não economizava na generosidade,

uma história famosa é a de que ele teria comprado dez sofás idênticos para entregar na casa de “suas mulheres”.

Sempre que falavam bem dele eu me desconcertava. Pensava “como é possível que um homem tão amoroso seja meu pai e se importe tão pouco comigo a ponto de não lembrar a data do meu aniversário?

funny story:

do mesmo signo que o meu, meu pai fazia aniversário dia 24 de fevereiro, todo ano eu acordava cedo, tomava banho e ligava para ele, do telefone da vizinha, do orelhão ou de casa (depois que passamos a ter um); ele prometia visitar, íamos tomar sorvete, ele traria um presente, eu dizia “não precisa presente, queria te ver”.

Ele nunca veio e a história não é engraçada.

Aos quinze anos entendi o problema: eu não existia de verdade. Eu era apenas uma ponte com o passado, uma lembrança distante de uma história “de amor” que também já não existia.

Que direito eu teria então de bater em sua porta de madrugada depois de um pesadelo? De deixar seus braços me enredarem e me protegerem? Que direito eu tinha de ter medo e desejar que ele me acalmasse? Ou de apenas ouvir sua voz nas manhãs de aniversário? Eu, logo eu, a filha da “outra”, aquela que anos depois ele sequer reconheceria?

Era preciso ser forte, aprender a chorar sozinha. Era preciso não deixar ninguém saber que sofria. Era preciso “ter coragem”.

Infelizmente essa história não é só minha.