#memorabilia #jessycapacheco

Quando frequentava a quarta série, uma professora tomou a ousada decisão de levar um grupo de crianças da periferia de Guaianazes para a recém criada “biblioteca” da escola. Era uma sala comum, menor que algumas das outras salas onde se apinhavam quarenta, cinquenta alunos. Era a mesma sala que antes era usada para estocar material, fazer palestras sobre “educação sexual” (obrigatória apenas para as meninas que demonstravam um certo comportamento de risco) e em algumas outras vezes, para ensaios do grupo de teatro, também criado naquele ano, pela mesma professora e do qual eu também participava.

Foi assim que aos dez anos, pela primeira vez na vida, eu tinha diante de mim uma pluralidade de mundos, eu podia escolher qualquer um, podia pegar na mão, examinar as primeiras linhas, levar para casa. E foi o que fiz. Escolhi um livro que narrava a história de uma menina que, entediada por conta de uma queda de energia que tirou sua maior distração, a TV, discava no seu telefone com fio (época em que isso era bastante luxuoso) uma sequência aleatória de números que a “conecta” com outra menina que parecia também não ter muito o que fazer. As duas passam horas falando sobre a vida, o que nessa idade se resume a brincadeiras, “pais” chatos, tédio, etc. Quando finalmente a luz volta, a primeira menina, que já havia e aquecido seu tédio, descobre ao se despedir de sua nova amiga que a menina não poderá assistir TV por ser cega (emoji de cérebro explodindo).

Para grande maioria a moral da história é simples: seja grato pelo o que tem, afinal, tem pessoas que têm menos do que você. Mas ali, aos dez anos de idade, lendo ativamente pela primeira vez, me identifiquei com a carência da menina cega, e também com aquele tipo de serenidade que denuncia uma força inumana. Aos dez anos eu já entendia a sensação da carência, já conhecia o sabor acre de estar no escuro, em um silêncio resignado, à espera. Mas sabia também que era necessário se debater, espernear, arrancar a si mesmo do escuro. Usar o que estiver à disposição, fazer naqueles vinte minutos de biblioteca as escolhas certas, ler em qualquer lugar, ler qualquer coisa que caísse nas mãos. Aos dez anos eu percebia, pela primeira vez, que era ali, naquela sala pequena, mistura de biblioteca com sala de ensaio, naqueles mundos inventados, na arte, que estava a redenção, a minha pelo menos. Eu podia ser outra, eu podia ser várias, forjar minhas narrativas.

Hoje eu faço parte de uma estatística bem diferente daquela que me foi destinada: pela primeira vez na história da USP, 51,7% dos ingressantes cursaram apenas a escola pública. Em 2018, aos 28 anos, com meu nome na quinta lista de chamada do SISU, chorei ao descobrir que minha teimosia havia me garantido o lugar de primeira da família a entrar em uma universidade pública.

Ainda assim estão presentes a insegurança, a dúvida. “Seria eu uma impostora? Eu não deveria estar aqui e todos sabem disso, só eu que não me dei conta ainda?”

Afinal, a única lição que me deram sobre escrever foi: “tem que ter começo, meio e fim”, receita de uma professora que passava as aulas falando dos seus bichos de estimação e não explicando redação.

Mas esta não é uma história sobre mérito, ou sobre superação. É a história das agruras de uma pessoa jovem, periférica, que teve a sorte de encontrar professores que acreditavam na importância das narrativas, na mudança. É a história de alguém que desistiu muitas vezes. E que, aos 32 anos e no sétimo semestre, ainda se pergunta se pode ocupar aquele espaço. Ainda não acredita ser capaz de “dar conta”. Ainda ouve aquela voz no fundo dizendo que se resignar é mais fácil. Ainda bate em portas fechadas. Ainda assiste pela janela, pela fresta. E ainda sonha. 

Mas é, principalmente, a história de alguém que sobreviveu para ver a universidade pública mudar. Uma história que não é só minha. E que com um pouco de sorte e muita teimosia, será de gerações inteiras.